segunda-feira, 11 de setembro de 2017

Pensar fora da caixinha...




O presente texto foi construído na intenção de tentar debater e denunciar práticas que vem me incomodando... Espero assim, avançar concretamente em reafirmar o consenso progressivo como princípio e como método enquanto prática.
Entendo que amadurecer e fazer o exercício pela unidade nem sempre é fácil, mas ainda que existam divergências, sejam internas ou externas, nossas diferenças políticas levadas à termo e em discussões infrutíferas nos enfraquecem. Nosso inimigo, que é um inimigo comum a todos os trabalhadores e trabalhadoras, é o grande vencedor em nossas divergências. E  por isso é importante que nós, enquanto classe trabalhadora, nos policiemos para não reproduzir o discurso fácil, preconceituoso e patronal.  A nossa briga enquanto trabalhadores é contra o  capital que nos coloca abaixo da condição de máquina. Para ele não somos humanos, não temos necessidades e não merecemos respeito.  O que lhe importa é o lucro e o poder. Enquanto para nós deve importar mais que a garantia de direitos trabalhistas, mas a dignidade, o respeito e a solidariedade. Mas e quando se passa a reproduzir não apenas o discurso, mas também a prática patronal nas nossas relações sindicais?
Desde meus 13 anos de idade me vi no front da militância, estudante secundarista, através do PCB.  Entrei pro Banco do Brasil em 2002. Lula tomando posse... Uma euforia tomando conta dos colegas. Muita coisa iria mudar. Ainda não era a ascensão da classe operária ao poder, mas era um primeiro passo... E foi um baita incentivo para que a greve de 2003 fosse guerreira. Tinha colega que eu nunca imaginei indo ajudar a fechar agência em banco privado. No mesmo ano  me tornei delegada sindical representando os colegas de minha agência. Fazia reuniões com os colegas, conversava com o G.G. sobre melhoria de clima. Militante ativa. Fui convidada por colegas da corrente a participar da diretoria do sindicato.
Éramos apenas 2 bancárias na corrente, eu, do Banco do Brasil e mais tarde outra, da Caixa. Depois chegou também mais uma colega do BB e se juntou a nós. Apesar de ser a corrente que mais discutia a questão feminina nacionalmente, no Rio tínhamos muito de discurso e pouco de pratica. Essa incoerência me incomodava. Outras divergências se seguiram e decidi que junto a outros colegas (de outras bases nacionais) era hora de sair da corrente.
Fiquei por um tempo "independente". Cumprindo o mandato e mantendo participação ativa na militância. Pela formação que tenho sabia que não conseguiria manter uma militância independente por muito tempo, era necessário manter-me dentro de um coletivo, organizada. Num papo de bar (um colega diretor me convidou para participar dos debates em sua corrente, com a perspectiva de discutir sobre a questão feminina com espaço e apoio. Não fui sozinha. Havia um grupo coeso, pensante, buscando tb esse espaço. Porém... No transcorrer desse percurso, o que a nova corrente menos fazia era discutir a questão feminina. Tudo parecia meio dado... O grupo se dissolveu nessa falta de perspectiva...
Apoiei-me então em fazer a militância pela formação, algo que eu já abraçava desde o início da gestão na diretoria. Tive pequenos contratempos com os colegas da corrente anterior. Certo sectarismo que cegava as boas ações coletivas. Voltei-me pra Articulação Bancária: formação interna. Foi interessante a vontade de participar de todos. Segui pelo caminho. Mas, a conjuntura é dinâmica e mutante. Divergências viram embates. Embates podem gerar conflitos. E a forma como são tratados os conflitos levam ao avanço ou ao esgarçamento do debate. Observei que o tratamento das divergências estava longe de ser pelo que era amplamente defendido como princípio e meio dentro da corrente. Fiz as cobranças e participei das discussões acreditando nos princípios da Articulação. Mas, alguns interesses (muitos pessoais) se mostraram acima dos princípios. Os Interesses divergiam dos princípios e eu divergi dos interesses. E os que cobiçavam poderes divergindo dos princípios souberam usar de suas alianças. Algo que por princípio ético não me caberia. Nunca abri mão de minha militância, nem abrirei. Alguém me disse: "Aqui só funciona gritando ou metendo o pé na porta". E vi que havia razão nessa fala ainda que eu discordasse dela. E isso ainda era uma observação de abrangência local e que não abalou minha confiança nos princípios da corrente.

Fui estabelecendo novas relações e novos vínculos nacionalmente. Alguns debates me incomodavam em não serem feitos. "Havia uma agenda maior". Acreditei nisso. E me calei muitas vezes por essa crença. Podia haver algo que fugia a minha pobre compreensão militante... Até que vi que fugia à questão local a inapetência de boa parte dos militantes em questionar em alto e bom som o que criticavam nos bastidores. Movimento estranho para quem milita. Percebi que havia uma relação entre o poder e o uso de meios pouco éticos ou, como diria um colega, "nefastos", com ameaças veladas e uma política de medo que não cabia entre nós, negociando o futuro de quem não simplesmente baixava a cabeça e aceitava passivamente. Ainda assim, abracei minha militância na Articulação, sem deixar de ladomeus questionamentos. O problema não pode ser a divergência e nem a cobrança de um debate amplo e democrático na condução do movimento que é para onde todo militante deveria convergir. Descobri que haviam outros incomodados com “reflexões e questionamentos organizados em um contexto” que iam ao encontro dos meus. Mas também havia os que estavam chegando impregnados do pensamento do “status quo” a política de aceitar e seguir “o que o chefe mandou”.  Sofrendo todos por um consenso que deveria ser progressivo, mas estava se tornando apenas “divisível”, formando grupos fechados, sectários, rancorosos, raivosos e vingativos. Muito longe do que a ideologia humanista e comunista na qual me formei apontavam caminhos.  Participar de um levante feminino traçou meu destino como "não confiável", palavras saídas da boca de uma companheira...
O que acontece... A direita nadando de braçada... Reforma atrás de reforma... Algumas vezes através de conciliações a que não deveria sequer ter sido concebido o direito de serem pensadas... E para onde vamos? Como podemos conciliar entre nós mesmos, se pensar pode ser proibido, debater pode ser proibido, agir pode ser proibido...  Podemos jogar fora a caixinha?  "Haverá consequências".  Já sei disso...
Aliás, no último dia 28, dia do bancário fui "presenteada" com minha exclusão do grupo da ArtBanSeebRio, sem qualquer aviso prévio ou justificativa, pela presidente do meu sindicato. Ao questionar recebi apenas a mensagem de que queria conversar pessoalmente. A conversa foi feita no sutil e apolítico estilo "pede pra sair".  Sendo taxada de "não confiável, ingênua ou oportunista".  Faz algum tempo tenho percebido a prática análoga ao assédio sofrido nos bancos pelos colegas: isolamento, descrédito, problemas de saúde ignorados...  E isso não é algo que vem acontecendo apenas comigo. Existem várias companheiras e companheiros passando pela mesma situação porque ousaram ouvir "eles" (o que deveria ser algo necessário a expressão democrática). E por isso acho importante fazer o mesmo que indicamos a qualquer bancário: denuncie.  Sim, haverá quem te critique, quem em interesse próprio e pessoal queira aparecer e crescer em cima disso. Igualzinho no banco. Mas, também há quem te abrace e mesmo de forma discreta entenda e apoie.
Eu continuo acreditando nos princípios da corrente, mas é complicado ver, saber e sofrer determinadas práticas que deturpam toda uma construção de luta... Como Construir um Novo Brasil usando a tática do inimigo contra quem compartilha a mesma trincheira?

Luciana Vieira Belem
Diretora Seeb Rio
Petista e membro da ArtBan